Socrates

Engraçado como algumas pessoas são tão determinantes em nossos destinos. Depois do meu pai, a quem devo boa parte daquilo que sou, reconheço em Sócrates (Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira) muito mais do que um ícone. Por conta de sua postura política, de suas amarras diante das injustiças, sejam do futebol ou da esfera pública, e do seu discurso afinado, optei pelo caminho tortuoso do esporte. Claro que não fui sozinha; levei comigo uma cúmplice das letras, Adriana Brito. Mas sabíamos que pelo fato de sermos mulheres – num templo dominado por homens –, seria um entrave. E foi. Cansamos de assinar textos com as alcunhas de Armandão e Pedrão, assim mesmo, no aumentativo que nenhum macho se atreve a questionar. Por mais de uma década nos dividimos entre a razão e a emoção de escrever sobre os bastidores do universo boleiro, testemunhando da decadência de grandes craques às arbitrariedades cometidas por alguns dirigentes. Mesmo contraditória essa aventura que começou com a simples admiração a Sócrates, continua a nos guiar ainda hoje. Adriana segue menos resistente ao futebol, é quase uma romântica, diria. Eu continuo entregue de coração a este sentimento que ora me faz ocupar o papel da mulher traída, ora o da dona da banca, num complexo enredo de sentimentos que me recuso (e nem quero) justificar. É preciso sentir para entender. Certa vez, Sócrates disse que eu "era a filha que ele não tivera" (ele só teve filhos homens: Rodrigo, Gustavo, Marcelo, Eduardo, Sócrates Jr. e Fidel). O Magrão, como a turma que o conheceu nos anos 70 o chamava, era um cara cativante, excelente anfitrião. Embora fosse assumidamente tímido, ele gostava de contar as piadas que arrancavam gargalhadas dos ouvintes, e nem se importava com as possíveis caretas quando resolvia cantarolar hinos de Gonzaguinha e outros hits da MPB. Sócrates poderia ser Aquiles, cuja fragilidade não estava no tendão, mas no combustível que o fazia encarar os fãs com descontração. Hoje compartilho da dor que todo Brasileiro traz consigo, legítimo ou não, corinthiano ou não, afinal, ídolos transcendem o bom-senso. (Por Patrícia Favalle)